quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Texto apresentado na Assembleia da União de Freguesias de Oliveira do Castelo, S. Paio e S. Sebastião




Texto apresentado na Assembleia da União de Freguesias de Oliveira do Castelo, S. Paio e S. Sebastião pela Assembleia Popular da Caldeirôa, a 24 de Outubro de 2017.
A Assembleia Popular da Caldeirôa constituída, em Julho de 2016, de forma espontânea por moradores, trabalhadores e utentes da zona preocupados com o processo e o projecto do parque de estacionamento no interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa, vem por este meio apresentar os pontos gerais das preocupações fundadas nos direitos que queremos ver respeitados:

a) Como primeiro ponto, o direito e exigência dos moradores em serem levados em consideração num projecto, que pela dimensão, implicação e localização obrigaria a um período de discussão pública específico sobre o projecto do parque de estacionamento;

b) Para além da não existência dessa discussão pública, também não foi apresentado um plano de mobilidade, nem foram esclarecidos os impactes previsíveis do novo parque de estacionamento, quer durante a fase de construção, quer durante a fase de exploração, nas condições de vida dos residentes e na circulação de veículos e pessoas nas vias adjacentes ao local de implantação;

c) A implantação do edifício do parque incidirá sobre os terrenos onde hoje existe um grande stock de “verde urbano” - sendo porventura o único quarteirão do centro histórico com uma verdadeira área permeável, não construída;

d) Em seguimento do ponto anterior, o revestimento vegetal dos logradouros e o seu solo permeável contribuem para a regulação ambiental local e da cidade, em termos climáticos e hidrológicos, e de redução do ruído e da poluição atmosférica;

e) O projecto viola o regulamento do Plano Director Municipal por provocar alterações topográficas que põem em causa a relação harmoniosa com o terreno envolvente, por pôr em risco bens a salvaguardar como património arqueológico industrial, ou por não ter em consideração que o projecto ocupará áreas da Estrutura Ecológica Municipal - de nível II;

f) A intervenção significará o apagamento da estrutura cadastral histórica, das especificidades do parcelário urbano, muito específico, diferenciador e, por si só, um património de valor não mensurável, onde se inclui, para além das habitações, antigas fábricas de curtumes e respectivos tanques de curtir, que a própria Câmara procura classificar como Património Cultural da Humanidade;

g) A ICOMOS - Comissão Nacional Portuguesa apresentou um parecer negativo sobre o projecto do parque de estacionamento, que pelas dimensões e pelos impactos irreversíveis que vai gerar, entra em contradição com a proposta da Câmara Municipal relativa à zona de Couros, que prevê uma área de 44 hectares de Património Mundial e uma área protegida de 582 hectares, que se estende da Veiga de Creixomil até à igreja da Penha;

h) A morfologia urbana, especificamente nesta área, é caracterizada por edifícios frágeis com cérceas de três pisos, do século XIX, ruas estreitas e inclinadas que serão transformadas em circular urbana com o tráfego rodoviário intenso previsto, e com entradas e saída por travessas e vielas;
i) Fazendo ligação ao ponto anterior, exemplificamos como decorrerão as dinâmicas do tráfego automóvel nas entradas e saída do parque segundo o actual sentido do trânsito. Por exemplo, para chegar à entrada da Travessa de Camões, o veículo poderá:
1) Entrar na rua D. João I e percorrê-la quase na totalidade, passar pela rua Dr. Bento Cardoso e rua de Camões;
2) Entrar na rua da Liberdade e subir a rua de Camões (nestes dois pontos verificamos que na rua de Camões haverá sempre uma sobrecarga com a passagem de automóveis);
3) Entrar pela rua Paio Galvão, passar na artéria Sul do Largo do Toural, descer a rua de Camões, como foi anunciado, ou continuar para descer a rua da Caldeirôa até à segunda entrada do parque de estacionamento;
4) A saída dos automóveis será feita pela Travessa da Caldeirôa em direcção à rua da Caldeirôa, que entra em conflito com a actual utilização pedonal com ligação ao recinto da Feira Semanal e Mercado Municipal.

j) Para além dos aspectos sócio-económicos e de morfologia do edificado, as especificidades topográficas, geológicas e hidrológicas desaconselham uma intervenção deste tipo. A inclinação do terreno, as linhas de água que atravessam os terrenos e irrigavam os jardins e hortas, o solo rochoso, granítico, sobre o qual assenta a nossa cidade - são todos aspectos que só serão ultrapassados com elevados investimentos que provocarão danos ambientais irreversíveis;

k) A maior parte dos edifícios é habitacional e, ainda que existam edifícios devolutos, seria expectável e desejável que a Câmara continuasse o processo que iniciou na década de 80, de melhoramento das condições de vida no centro urbano, de modo a promover um centro urbano vivo e habitado;

l) Sobre os níveis de poluição no Largo do Toural, referimos, a partir do estudo "Impacto da qualidade do ar após intervenção urbanística no Toural e sua envolvente", de 2013, que o Largo do Toural apresenta uma percentagem de >41µg/m3 (maior que quarenta e um microgramas por metro cúbico de ar) de partículas inaláveis e finas, que segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) está no nível em que “as pessoas muito sensíveis, nomeadamente crianças e idosos com doenças respiratórias devem limitar as actividades ao ar livre”;

m) Este ponto não foi referido na Assembleia Extraordinária da União de Freguesias da Cidade, mas acrescentamos aos pontos supra identificados, que a Associação Vimaranense para a Ecologia, em Junho de 2017, questionou publicamente a construção de um parque de estacionamento no interior do quarteirão em causa.


Em síntese, afirmamos que o parque de estacionamento no interior do quarteirão não resolverá os problemas de mobilidade no centro da cidade, provocará mais poluição nas vias adjacentes e levará para o interior do quarteirão gases poluente e tóxicos.

Em alternativa propomos a criação de um jardim público que permitiria às habitações ter uma nova frente que seja um prolongamento do interior das casas e das lojas de comércio. Este jardim seria indutor e motor de uma revitalização benéfica do ponto de vista ambiental e económica visto que as habitações aumentariam o seu valor patrimonial.


Guimarães, 24 de Outubro de 2017



Enquadramento do parque de estacionamento de Camões
no interior do quarteirão.

sábado, 21 de outubro de 2017

"Moradores de Guimarães insistem num jardim em vez de estacionamento na Caldeiroa"


No passado dia 19 deste mês foi publicada uma notícia no jornal Público sobre a Assembleia Popular da Caldeirôa e a defesa do bem-estar colectivo para a cidade de Guimarães.

Aqui está a notícia na íntegra:

"
Moradores de Guimarães insistem num jardim em vez de estacionamento na Caldeiroa
Presidente da câmara diz que a obra para parquear mais de 400 automóveis a sul do centro histórico pode arrancar já neste ano mas a Assembleia Popular da Caldeiroa decidiu continuar a defesa de um jardim público. A comissão portuguesa do ICOMOS emitiu uma parecer negativo à obra.

A luta para transformar o interior do quarteirão das ruas de Camões, da Liberdade e da Caldeiroa, todas elas estreitas, em paralelo, num jardim público rodeado pelas traseiras dos edifícios de habitação, ao invés do parque de estacionamento para mais de 400 viaturas, cuja construção está prevista arrancar ainda neste ano, vai continuar, afirmou ao PÚBLICO Max Fernandes, porta-voz da Assembleia Popular da Caldeiroa, movimento sem “hierarquias”, que, há uns dias, acolheu 22 pessoas na sua oitava reunião e aprovou por “unanimidade” a medida.

Esta associação informal, que pretende, no futuro, ter “reconhecimento jurídico”, começou a reunir-se no ano passado em oposição ao parque, adjudicado, a 25 de Maio, pela Câmara Municipal à empresa HCI Construções por cerca de 5,8 milhões de euros. Argumenta que a obra iria ditar a saída dos seis artistas — agora dois — que lá trabalhavam e originar problemas de “saúde pública” e de “urbanismo”.

Nesta fase, Max Fernandes, um dos artistas ainda instalado numa das antigas fábricas do quarteirão, argumenta que, em sentido inverso, o jardim público daria à cidade um espaço tranquilo, com apenas duas entradas e propício a “banhos de sol no Inverno”, dada a “excelente exposição solar”, onde seria fácil imaginar “crianças a jogar futebol e pessoas deitadas na relva”.

O novo espaço evitaria mais “trânsito no centro da cidade” e criaria ainda, graças ao seu “solo permeável, uma ligação de contraste” com o Largo do Toural, ali próximo, que, na sequência da requalificação para a Capital Europeia da Cultura, em 2012, ficou com o solo “todo impermeabilizado”, provocando, segundo um estudo de 2013, da Universidade do Minho, divulgado no blogue da Assembleia na sexta-feira, um “nível médio” de poluição, que, segundo os critérios da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), não deve ser acessível a “crianças e idosos com problemas respiratórios”.

O presidente da Câmara de Guimarães, Domingos Bragança, reiterou, no entanto, ao PÚBLICO, que o parque de estacionamento é um projecto que, além de já ter sido “adjudicado” e recebido o visto do Tribunal de Contas, integrava o programa eleitoral do PS já em 2013 e foi “sufragado” pelos vimaranenses tanto há quatro anos como nas autárquicas de 01 de Outubro, nas quais foi reeleito com maioria absoluta.

O parque de estacionamento, constituído por quatro níveis, que se distribuem em dois volumes de três andares, já está nas “mãos da construtora” e pode avançar a qualquer momento, inclusivamente já neste mês, confirmou o autarca, realçando que a obra vai “compensar os lugares perdidos com a pedonalização total do centro histórico”.

Na proposta de utilidade pública da expropriação de 14 parcelas do quarteirão, cujo valor ascendeu aos 672 mil euros, a Câmara refere que a nova valência vai colmatar, além da diminuição da oferta, o aumento da procura por estacionamento gerado por factores como o “aumento da procura turística”, a subida do número de eventos culturais desde 2011 e a “recuperação da actividade económica”.

Apesar da obra poder arrancar a qualquer momento, a Assembleia Popular quer “pedir autorização à Câmara Municipal” para uma visita aberta à comunidade, acompanhada de algum técnico municipal, para sensibilizar a autarquia para o potencial do local enquanto parque, devido ao “solo fértil”, visível pelas escavações arqueológicas já em curso, e pondera, eventualmente, interpor uma acção jurídica para travar o processo.

Parque recebe parecer negativo do ICOMOS

A autarquia vimaranense solicitou, no âmbito da proposta de alargamento da área classificada como Património Mundial da Humanidade à zona de Couros, enviada à UNESCO em 2015, um parecer à Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS). O PÚBLICO confirmou que esta entidade avaliou negativamente o projecto, tal como tinha avançado o semanário local Mais Guimarães.

“Demos ao parque de estacionamento um parecer não positivo, mas não vinculativo”, disse a presidente do Conselho de Administração da instituição, Maria Ramalho, explicando que a obra, pelas dimensões e pelos impactos irreversíveis que vai gerar,entra em contradição com a proposta relativa à zona de Couros, que prevê uma área de 44 hectares de Património Mundial e uma área protegida de 582 hectares, que se estende da Veiga de Creixomil até à igreja da Penha.

Maria Ramalho explicou ainda que a obra exige demolições, construção de áreas de entrada e saída de carros e vai afectar zonas verdes do quarteirão, onde existem, lembrou, alguns antigos tanques que, segundo as indicações que recebeu, vão ser protegidos, apesar da sua extensão ser ainda desconhecida.

Já o arquitecto Ivo Oliveira, docente na Escola de Arquitectura da Universidade do Minho (UM), que participou na sessão de esclarecimento sobre a obra na Sociedade Martins Sarmento, a 23 de Maio, afirmou ao PÚBLICO que o parque contraria o paradigma cada mais presente no mundo ocidental, em que as pessoas aparcam os automóveis numa “área de estacionamento com capacidade” junto a uma circular, e percorrem, depois, a cidade em “modos suaves”, mencionando ainda que Guimarães tem parques “muito subaproveitados”, sobretudo em áreas comerciais — a cidade tinha, em 2015, segundo o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, elaborado pela câmara, 13.534 lugares de estacionamento.

Por outro lado, o investigador da UM considera que a criação de um jardim rodeado de habitações, que apesar de público é sobretudo usado por moradores, tem potencial para criar “uma certa noção de comunidade”, à semelhança de certas zonas residenciais em cidades do norte da Europa, onde o espaço não é “fechado à chave” ao resto da população mas há um “sentimento de pertença”."

Jornalista: TIAGO MENDES DIAS
Notícia publicada online a 19 de Outubro de 2017, 8:24

Link directo da notícia, aqui.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Níveis de poluição no largo do Toural



Em 2013 foi apresentado pela Universidade do Minho um estudo do nível de poluição no centro de Guimarães. Esse estudo apresenta as diferenças do nível de poluição antes e depois da intervenção urbanística no Largo do Toural e na Alameda S. Dâmaso.

A particularidade deste estudo de compilação de informação quer do volume de tráfego automóvel quer dos níveis de partículas inaláveis e finas, conhecidas por PM10, ajudam-nos a falar com dados concretos sobre o nível de poluição atmosférica do Largo do Toural. O estudo apresenta uma percentagem de >41µg/m3 (maior que quarenta e um microgramas por metro cúbico) de partículas inaláveis e finas, cujo diâmetro médio é inferior a 10 mícron*, que segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) estaria no nível médio, segundo o índice da qualidade do ar. No entanto, o nível médio já é muito preocupante. Segundo a APA, no nível médio “as pessoas muito sensíveis, nomeadamente crianças e idosos com doenças respiratórias devem limitar as actividades ao ar livre.”




Se o parque de estacionamento for construído no miolo do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa com a entrada prevista pelo Toural, descendo a rua de Camões até à Travessa de Camões, é expectável que o número de automóveis aumente exponencialmente e em consequência o nível de poluição passe de médio para fraco, onde “as pessoas sensíveis (crianças , idosos e indivíduos com problemas respiratórios) devem evitar actividades físicas intensas ao ar livre. Os doentes do foro respiratório e cardiovascular devem ainda respeitar escrupulosamente os tratamentos médicos em curso ou recorrer a cuidados médicos extra, em caso de agravamento de sintomas. A população em geral deve evitar a exposição a outros factores de risco, tais como o fumo do tabaco e a exposição a produtos irritantes contendo solventes na sua composição.”

Conselhos de saúde em função do Índice da Qualidade do Ar

Para concluir, acreditamos que a construção do parque de estacionamento irá contribuir para que a vida quotidiana dos residentes das freguesias da cidade piore substancialmente e sofra um decréscimo do seu bem-estar.

Contrapomos a este projecto, tão pouco sustentável e ecológico, a criação de um jardim público que reponha os espaços verdes que nos forma retirados tão vilmente em 2012. Desta forma, contribui-se não só para o bem-estar mas também para a melhoria da saúde pública, pois, um jardim com árvores e plantas purifica a atmosfera do actual centro de Guimarães.

Notas:
* mícron - unidade de medida de comprimento que corresponde à milésima parte do milímetro.

Aspecto actual do interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Defesa de um jardim público







Algo do jardim edénico vive nos logradouros deste quarteirão.
Talvez a própria árvore da sabedoria habite entre essa esquecida vegetação.

Manuel José Fernandes (engenheiro florestal e investigador), sobre o interior do quarteirão Camões-Caldeirôa


As assembleias populares da Caldeirôa decorrem sempre que alguém ou um grupo de pessoas acha que é necessário tomar alguma decisão que envolve um grande contexto. Neste caso, a grande preocupação é o destino do interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa, em Guimarães.

Estas assembleias, sem filiação partidária, têm um funcionamento democrático diferente, por exemplo, do das assembleias municipais onde os grandes partidos políticos têm mais tempo de retórica do que os mais pequenos ou então pela eleição de um determinado deputado, esse será sempre o "escolhido" para falar, mesmo que se torne incompetente para o cargo. Nas assembleias populares, qualquer pessoa pode ser escolhida para determinada tarefa ou para representar o grupo. Por isso, o funcionamento das assembleias populares é sempre de respeito mútuo e de abdicação do poder sobre o outro. Também convém informar de que a participação nas assembleias é voluntária. Mesmo quem nunca participou nas assembleias anteriores pode comparecer e participar na próxima.

A Assembleia Popular da Caldeirôa foi constituída, em Julho de 2016, por um conjunto de pessoas preocupado com o resultado nefasto para o bem-estar comum se a construção do parque de estacionamento de Camões no interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa for executada.

Nesta 8ª Assembleia Popular da Caldeirôa que decorrerá no próximo Sábado, às 16:00, na Travessa da Caldeirôa, vamos discutir vários pontos como defender a criação de um jardim público em vez da ideia do parque de estacionamento e proteger os morcegos e a biodiversidade, acrescentando a esta ordem de trabalhos outros assuntos, que é um espaço aberto à introdução de outro ou outros temas à discussão.

O primeiro tema da discussão é muito urgente. À medida que o tempo avança torna-se mais difícil defender um espaço que pertence a todos nós. Dentro do interior do quarteirão existe uma área muito grande sem qualquer construção arquitectónica composta por imensas árvores e solo permeável que possibilita grandes espaços verdes.

Durante muito tempo os promotores do projecto do parque de estacionamento diziam que dentro do quarteirão não havia nada de valor e que por isso um parque de estacionamento com 440 lugares seria a solução. Enquanto não se soube o que realmente existia dentro do quarteirão, as pessoas deixaram-se ficar pela dúvida. No entanto, têm surgido muitas imagens e vídeos do interior do quarteirão que provam que o seu interior é muito rico, não só pelas árvores e biodiversidade, como pelo património arqueológico industrial existente, pela actividade cultural que funciona numa das fábricas a ser demolida e por ser uma área nobre da cidade a escassos metros do Largo do Toural que deixou de ser um jardim desde a sua última remodelação.

Se o interior do quarteirão fosse a única alternativa para tal emprendimento ninguém se insurgia contra tal projecto. O problema está em que nunca foram apresentados estudos de alternativas, assim como nunca foram apresentados os pareceres técnicos de arquitectos e outros especialistas sobre a viabilidade do local escolhido e do tamanho do parque de estacionamento. Assim como não são tornados públicos pareceres de organizações de protecção do património, como por exemplo o parecer encomendado pela CMG à ICOMOS (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios). A preocupação patrimonial não tem que ver apenas com o interior do quarteirão isolado, mas com a área de protecção à zona classificada de Património Cultural da Humanidade. A construção deste parque de estacionamento também viola a área que deverá integrar a proposta de inscrição da zona de Couros à classificação de Património Cultural da Humanidade (neste link podem ler uma publicação anterior com mais informação sobre o assunto).

A defesa de um jardim público cheio de árvores e espaços verdes para o interior do quarteirão é o mais lógico na actualidade da cidade de Guimarães. Este quarteirão fica a escassos metros do Largo do Toural e é constituído, essencialmento, por casas de habitação. O centro da cidade tem perdido espaços ajardinados, como aconteceu com o próprio Largo do Toural ou a Alameda S. Dâmaso. O interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa não se pode transformar num espaço cimentado, sem espaços verde com grandes árvores e jardins coloridos. Um parque de estacionamento numa cidade pode ser comparado com uma arrecadação numa habitação que nunca fica na zona nobre da casa. O interior do quarteirão é uma zona nobre que a cidade ainda não descobriu. É nobre pela localização e pelo seu potencial em criar uma qualidade de vida melhor, principalmente ambiental, no centro da cidade.

Há mais informações a revelar sobre todo este processo e na próxima Assembleia Popular da Caldeirôa falaremos delas a quem não o tem acompanhado, assim como definiremos as próximas acções para a defesa do património que nos diz respeito a todos.



A 8ª Assembleia Popular da Caldeirôa vai decorrer no próximo Sábado, dia 14 de Outubro, às 16:00, na Travessa da Caldeirôa (ligação Rua da Caldeirôa à rua da Liberdade).











Nota 1: A fotografia do cabeçalho é do interior do quarteirão Caldeirôa, Liberdade, Camões e foi tirada na primeira semana de Outubro deste ano.

Nota 2: O desenho pretende ser um símbolo da protecção do interior do quarteirão e da sua biodiversidade, nomeadamente os morcegos que são uma espécie protegida por lei.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Manipular o público?

Há cerca de uma semana foi tornado público um vídeo promocional do futuro parque de estacionamento de Camões. Nesse vídeo foram usadas imagens ditas "reais" gravadas por um drone com visão aérea e imagens virtuais produzidas pelos autores do projecto. Em todas as imagens é notória a intenção de manipular o público. Assim, iremos usar frames desse mesmo vídeo para demonstrar essa manipulação, pois procederemos a uma análise crítica das mesmas.

O projecto apresentado pelo arquitecto Raúl Roque, e defendido por Domingos Bragança e Filipe Fontes, na sessão de esclarecimento de 22 de Maio, na Sociedade Martins Sarmento pouco tem a ver com o que é mostrado neste filme. Apenas o sítio e a função são iguais.

É a primeira vez que este vídeo é mostrado, apesar de ser possível que as imagens virtuais do filme já estivessem prontas aquando da sessão de esclarecimento, levando-nos a inferir que não houve coragem para mostrá-lo então. Imaginamos que a razão tenha sido porque sabiam que o projecto do vídeo não é o mesmo projecto que foi apresentado publicamente. Mas porquê mostrá-lo agora, sendo um projecto fantasma? Qual é o propósito de criar esta confusão no público?

Contudo, vamos analisar o filme. Este projecto ignora, entre outras coisas, o património arqueológico industrial que integra os pelames da antiga fábrica de curtumes da Caldeirôa. Não refere que a saída é na travessa da Caldeirôa e afirma haver uma cobertura ajardinada, quando apenas vemos uma placa de betão pintada de verde.


No entanto, este vídeo apresenta elementos visuais novos à discussão pública sobre o projecto. É a primeira vez que temos acesso a imagens aéreas da zona verde que fica a Norte do quarteirão. Essa zona pode ser vista no centro desta primeira imagem como uma grande mancha verde que, desastrosamente, será destruída. Com essa destruição desaparecerá uma zona considerável de solo permeável. Não nos podemos deixar enganar pela cor verde da cobertura do edifício (imagem abaixo).



Esta imagem, sendo visível à direita a rua da Caldeirôa, e ao fundo o largo do Toural e Alameda S. Damaso, mostra-nos não só o resultado do arboricídeo no miolo do quarteirão Camões-Caldeirôa como também se vê a imagem enganadora de um parque de estacionamento ladeado de árvores. É um artifício que os arquitectos e construtores usam regularmente para convencer de que o futuro daquele espaço vai ser ideal, todavia não passa de uma ficção. Tudo à volta pertence a particulares que manterão os logradouros da forma que entenderem. A imagem virtual apresenta os logradouros cheios de árvores e até sem divisórias entre os terrenos. Esta fantasia dá-nos a ideia de que aquele terreno vai ser todo para o público em geral, quando na realidade as pessoas apenas andarão na cobertura do parque de estacionamento, sem sombras e com o cheiro desagradável típico dos parques de estacionamento.

A manipulação visual é mais aguda com as três seguintes imagens. Estes lugradouros pertencem às casas entre os números 31 e 75 da Rua de Camões, portanto, fora da zona a "intervir". Porque usaram estas imagens?







Não acreditamos, aliás, que tenham pedido autorização aos proprietários para filmarem o terreno em visão aérea. A acrescentar, referimos que estas imagens não dignificam os próprios donos dos terrenos e casas. As imagem têm apenas o propósito de enganar. Não é falta de rigor da filmagem, é uma tentativa de manipulação da opinião pública, passando a ideia de que o interior do quarteirão está todo em ruína.

As seguintes imagens mereceram o nosso reparo pelo seu absurdo. As imagens geradas por computador são sempre "irreais". A higiéne demonstrada no vídeo com paredes limpas, espaços iluminados, atmosfera pura e pessoas a passearem tranquilamente será impossível em qualquer parque de estacionamento.



A segunda imagem aparece mais ou menos no primeiro meio minuto do filme. Apresenta-nos uma entrada a partir da Travessa de Camões como se estivessemos a entrar numa catedral. O filme apresenta a relação entre o automóvel e os transeuntes como se fosse harmoniosa. Trata-se de um defeito deste género de filmes. Nas imagens virtuais com pouco rigor técnico tudo nos parece igual: o corpo humano é da mesma matéria que o automóvel, o betão tem a mesma textura que a erva, etc. É a própria linguagem binária que cria estas sensações. Neste caso, nem a imagem virtual consegue disfarçar a possível austeridade que é a entrada de um parque de estacionamento.



A área que vêem à direita, para além do muro, pertence a particulares. Está fora da zona a "intervir". A ironia mais flagrante e mais ignóbil neste frame é que apresenta esta entrada como se fosse um pequeno bosque, mas para a fazerem, terão de demolir dois edifícios do centro histórico e arrancar, só nesta área de 5 metros, várias árvores, nomeadamente, uma grande camélia, uma palmeira, vários loureiros, e outras árvores que ainda precisamos de catalogar.

A seguinte imagem aparece no vídeo aos 2 minutos e 58 segundos e é uma perspectiva esclarecedora do enquadramento do parque no miolo verde do quarteirão. Toda a área que é apresentada com árvores não pertence à CMG e não tem este aspecto de jardim verde contínuo. Os logradouros exteriores à zona a "intervir" não têm tantas árvores. Isto é claramente uma tentativa de criar uma imagem de jardim que não é, nem será, real.



Os logradouros dos particulares têm mais expressão topográfica do que aquela que é demonstrada nesta imagem. Há muitos elementos a destacar como os vários desníveis, muros de separação, hortas e hortelãos e caminhos que atravessavam o interior quarteirão.

Porém destacamos esta imagem por nela estar claramente demonstrado que este projecto apenas traz betão e vários planos austeros pintados a verde. Sabemos que este projecto está inserido no programa de candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia 2020 em que se fomenta a sustentabilidade e biodiversidade, mas esta obra faraónica não serve a nenhum dos conceitos. Aliás, a "cobertura verde" nem para flores servirá.

Em forma de comparação mostramos esta imagem numa outra perspectiva e concluímos que a integração da volumetria dos edifícios existentes é mais "natural" para a cidade. O parque de estacionamento é um bloco de betão descaracterizado que é enterrado no miolo de um centro histórico.




Como é do conhecimento geral, dentro deste quarteirão existe um conjunto de pelames (tanques de curtimenta) que já foram arqueologicamente catalogados. Estes pelames deveriam ser conservados e incluídos na candidatura da zona de Couros a Património Cultural da Humanidade. Com este projecto esse património arqueológico industrial será destruído e porá em causa a própria candidatura, como já apresentamos numa publicação anterior.

O local dos pelames fica sensivelmente entre a parte central dos círculos a vermelho, o caminho pedonal do primeiro plano e o paralelipípedo cinza oco que parece ser uma caixa de escadas.





Planta dos vários tanques
que se encontram no subsolo de uma das fábricas.


Este processo do parque de estacionamento de Camões já provocou a expulsão de pessoas do centro da cidade. Em Novembro de 2016, um casal que vivia há 35 anos neste quarteirão foi expulso para a periferia da cidade.



Entre Outubro de 2016 e Maio de 2017, por pressão conjectural, saíram cinco artistas dos respectivos ateliers que funcionavam numa das fábricas a ser demolida. Na casa que vêm a cinza, mesmo antes da entrada dos carros (imagem acima), vive um casal há 50 anos. Claro que na imagem virtual parece apenas um edifício inerte, como que dispensável. Se o parque de estacionamento for construído as janelas dos quartos dessa casa ficarão ao nível dos faróis dos automóveis, a escassos 2 metros. Será que alguém da CMG apresentou o projecto ao casal que mora nesta casa?


Aspecto do atelier em Novembro de 2017
Fotografia do jornal online Free Pass


Na fábrica, desde Setembro de 2012, já trabalharam muitos artistas. Alguns ficaram apenas meses, e outros tentaram construir o seu mundo com o tempo útil de produção e organização. Actualmente, só trabalham lá dois artistas (também habitam o espaço um gato e uma cadela). Todos os outros saíram, faseadamente, pela pressão desta construção do parque. A enriquecer a dinâmica artística da produção, também existe um espaço de exposições que abriu ao público em Setembro de 2015.



O último plano do filme é muito particular e refuta os defensores do parque de estacionamento. Neste plano vemos um desenho a vermelho definindo a área de intervenção da CMG, e a 100 metros podemos ver três parques de estacionamento praticamente vazios (desenhos elípticos laranja foram feitos por nós). Não vamos falar da capacidade de cada parque porque já o fizemos em publicações anteriores, mas afirmamos que este plano confirma o que temos vindo a dizer há cerca de um ano. Este último plano é muito particular porque a realidade "trai" os produtores deste filme.



A maioria perde se este parque de estacionamento for construído, por isso continuaremos a defender este quarteirão contra a sua morte defendida por poucos. Em jeito de comentário partilhamos uma expressão que foi usada na sessão de esclarecimento por um elemento da CMG: "com o parque de estacionamento vamos criar um espaço público de qualidade". A nossa questão a colocar a esse senhor é se ele prefere passear na cobertura de parques de estacionamento ou se prefere um jardim concreto como este que apresentamos abaixo que é o jardim da Estrela, em Lisboa. Adiantamos que a nossa próxima fase é defender a criação de um parque público de qualidade no centro da cidade com árvores gigantes e que fiquem velhas tão velhas que nenhum dos presentes, actualmente, veja a sua morte.
Ou seja um projecto não para os próximos 20 ou 30 anos como advogam os defensores desta atrocidade ambiental. Mas um legado intemporal para todos os cidadãos presentes e futuros.
Este é o nosso sonho, um sonho para todos e onde podemos todos usufruir de uma vida sadia e feliz, e como diz o poeta "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce."



Abraços,

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O parecer da ICOMOS deve ser do conhecimento público


Ontem houve trabalhos com maquinaria pesada dentro do quarteirão Camões-Caldeirôa. Estranhamos esta movimentação porque ainda há muitas perguntas fundamentais por responder sobre o projecto do parque de estacionamento delimitado pelas ruas de Camões, Caldeirôa e Liberdade.

Sessão de esclarecimento a 22-05-2017 na S.M.S.
Na mesa estavam, da esquerda para a direita,
Raúl Roque, Domingos Bragança, Alexandra Gesta e Filipe Fontes.
Na sessão de esclarecimento que decorreu na Sociedade Martins Sarmento, no passado dia 22 de Maio foi dito pelo presidente da Câmara Municipal de Guimarães, em funções, que  tinha pedido um parecer à ICOMOS (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios). Este parecer é relevante pela importância reconhecida desta organização, e porque a zona de construção encontra-se na "zona de protecção" do centro histórico a escassos metros do núcleo classificado de Património Cultural da Humanidade.  Apesar deste parecer não ser vinculativo para determinar se o projecto do parque de estacionamento é executado ou não, ele demonstra se a opção é a indicada para a valorização do património da cidade. 

Nós sabemos que o parecer da ICOMOS já foi enviado à Câmara Municipal de Guimarães, por isso, esperamos que ele seja divulgado publicamente e que possa ser tomado em consideração pela relevância que ele representa.


Entretanto, nas obras que decorreram ontem, foi demolida uma parede de uma das fábricas situada no interior do quarteirão, assim como foi destruído parcialmente um muro de pedra que pertencia a um caminho pedestre que era utilizado por antigos moradores e trabalhadores da Caldeirôa. Este caminho com a largura aproximada de um metro circunda o exterior da fábrica onde se situam os vários tanques da antiga indústria de curtumes. Este não é o único percurso existente, há mais. As pedras retiradas do seu local não foram numeradas o que demonstra que não foi tido em consideração o tipo de zona delicada do ponto de vista arqueológico. 


Aproveitamos esta publicação, também, para avisar os técnicos da CMG que não podem demolir parcialmente ou na totalidade nenhum edifício do interior deste quarteirão sem antes ser vistoriado por uma equipa credenciada pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas). Existem morcegos dentro deste quarteirão e como foi anunciado neste blogue, os abrigos de morcegos são protegidos por lei (Decreto 31/95 de 18 de Agosto).



sábado, 19 de agosto de 2017

Morcegos no interior do quarteirão Camões-Caldeiroa


No interior do quarteirão Camões-Caldeirôa, em Guimarães, existem, provavelmente, várias espécies de morcegos. Nesta publicação mostramos várias fotografias. Faltam estudos de reconhecimento sobre a(s) espécie(s) e sobre os locais de abrigo. Toda a família dos morcegos está protegida pelo Acordo sobre a conservação dos morcegos na Europa através do Decreto 31/95 de 18 de Agosto. Realizado à luz da Convenção de Bona e aplicando-se a todas as espécies de morcegos existentes em Portugal, este Acordo inclui algumas obrigações fundamentais, sendo esperado que se adote e cumpra as medidas legislativas e administrativas necessárias à sua implementação.

O Acordo sobre a Conservação das Populações de Morcegos Europeus (Eurobats) foi realizado à luz da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras Pertencentes à Fauna Selvagem (Convenção de Bona) aberta para assinatura a 23 de junho de 1979, em Bona.

O Acordo sobre a Conservação das populações dos Morcegos Europeus baseia-se nos seguintes pressupostos:

a) no reconhecimento do estatuto de conservação desfavorável dos morcegos na Europa e nos Estados não europeus da área de distribuição, e em particular a séria ameaça que sobre eles paira decorrente da degradação do habitat, da perturbação dos abrigos e de certos pesticidas; e
b) na consciência de que as ameaças que os morcegos enfrentam na Europa e nos países não europeus da área de distribuição são comuns tanto a espécies migratórias como não migratórias e de que os abrigos são partilhados frequentemente por espécies dos dois tipos.

São obrigações fundamentais deste Acordo:
1 - proibição da captura deliberada, aprisionamento e morte de morcegos;
2 - identificação dos locais importantes para o estatuto de conservação destes animais;
3 - conservação dos habitats importantes;
4 - tomada de medidas para promover a conservação destas espécies e consciencializar o público; e
5 - desenvolvimento de programas de investigação.

A complementar este texto deixamos aqui uma ligação a literatura que diz respeito à relação das cidades com os abrigos dos morcegos. Pedimos desculpa pelo texto ser em inglês. 
Chamamos particular atenção para o ponto 6 do artigo que foca a atenção na relação dos morcegos com os edifícios Património da Humanidade.


Fontes:
ICNF
UNEP/EUROBATS Agreement on the Conservation of Populations of Europeans Bats
EUROBATS - Publication series n.º 4


Mais fotos dos morcegos do interior do quarteirão:














Também deixamos aqui um vídeo com a alegria do contacto com os morcegos.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Proposta Zona de Couros como Património Cultural da Humanidade




"La ocupación del territorio tiene la lógica de lo físico, de lo ambiental y de lo histórico. Bajo estas consideraciones se decanta el patrimonio cultural y una forma de vida vinculada a las relaciones de trabajo y al aprovechamiento eficiente de los recursos disponibles en el entorno próximo y lejano.
Llama la atención que en la ocupación del territorio, no se aprecie el predominio de manchas compactas de edificaciones, como sucede en la mayor parte de los países europeos; por el contrario, los caminos, no las plazas ni los espacios públicos, aparecen como las líneas estructurantes del caserío, de forma similar a lo que sucede en la Europa medieval."


Anexo IV . Guimarães Patrimonio de la Humanidad.
El agua, la Penha y el Couros.
Jorge Benavides Solís (Doutor Arquitecto)
(http://www.cm-guimaraes.pt/…/write…/document/5634/Anexo4.pdf)

Este excerto foi retirado da proposta de inscrição que visa a classificação da Zona de Couros como Património Cultural da Humanidade, alargando a área actualmente classificada - “Centro Histórico de Guimarães” - e redefinindo os limites da zona tampão de protecção à(s) área(s) classificada(s). (http://www.cm-guimaraes.pt/pages/1206).

A construção do parque de estacionamento Camões-Caldeirôa vai destruir a possibilidade de obter essa classificação por várias razões: a relação de necessidade entre a indústria de curtumes e a água vai deixar de ser visível; o património industrial que se foi desenvolvendo no século XX no interior do quarteirão, primeiro com a indústria de curtumes e depois com a tecelagem e tinturaria oferecem o contexto arqueológico aos tanques de curtimenta existentes. Nestes dois casos o parque de estacionamento apagará todo o cadastro territorial da zona. Será um apagamento histórico não só dos edifícios mas também da memória colectiva da cidade.
A ampliar a perda arqueológica também se destruirá a relação de relativa harmonia entre a flora e fauna dependente do solo permeável da zona. A título de exemplo, referimos a grande quantidade de morcegos, pardal-comum e andorinhão-preto, todos insetívoros.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

7ª Assembleia Popular da Caldeirôa


A reabilitação do interior do quarteirão delimitado pelas ruas Camões, Caldeirôa e Liberdade ainda não está resolvida. O projecto do parque de estacionamento de 440 lugares, com o custo de € 8 Milhões de euros, não é a solução.

Na sessão de esclarecimento sobre o futuro parque de estacionamento, que decorreu no passado dia 22 de Maio, na Sociedade Martins Sarmento, percebeu-se que o projecto não é consensual. Não foram apresentados argumentos e/ou estudos concretos que ditem o parque de estacionamento como única possibilidade para o quarteirão. Não é um projecto consensual, nem ao nível técnico, visto que a partir das palavras de vários arquitectos, esta é apenas uma decisão política. E não é consensual porque os moradores, utilizadores, comerciantes e cidadãos não foram ouvidos nem considerados. É um projecto monstruoso e oneroso para uma cidade classificada como Património Cultural da Humanidade e que pretende ser Capital Verde Europeia. Além disso, destruirá solo permeável, património arqueológico industrial e provocará mais trânsito e poluição nas ruas de acesso ao parque (D. João I, Dr. Bento Cardoso, Camões, Liberdade e Caldeirôa) com consequente perda de qualidade de vida para todos e para todas.

Na 7ª Assembleia Popular da Caldeirôa vamos falar de alternativas para o interior do quarteirão; vamos falar da criação de uma associação e/ou comissão de moradores para salvaguardar o interesse comum, e assim, acautelar a qualidade de vida daqueles e daquelas que realmente se importam com as suas vidas no quarteirão e na cidade.


Hora e local:
15 de Julho de 2017 (sábado), às 16h00, na travessa da Caldeirôa, em Guimarães.